
No fim de 2025, a UNESCO reconheceu algo que nunca esteve num prato específico:
o gesto de cozinhar todos os dias, repetido em milhões de casas há séculos.
Publicado em 29/07/2026 • por Grupo TECNO
Em Nova Delhi, no fim de 2025, um comitê intergovernamental da UNESCO decidiu por unanimidade inscrever a cozinha italiana na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
Não uma receita, nem um prato, nem uma região específica: o conjunto de práticas que sustentam esse costume diário, da escolha do ingrediente à estação, da técnica que passa de mão em mão ao ritual de sentar à mesa.
Foi assim que Massimo Bottura, chef do restaurante Osteria Francescana, em Modena, resumiu o que a notícia significava de fato: consagrar a cozinha como patrimônio da humanidade é reconhecer sua força em criar ligações, construir comunidades e restituir dignidade.
A frase vem de quem cozinha na mesma região que produziu o Parmigiano-Reggiano, o aceto balsamico tradizionale e boa parte desse costume que a UNESCO decidiu proteger.

A massa feita à mão traduz um conhecimento que não depende apenas de receita: nasce da prática, da repetição e da convivência.

A Emilia-Romagna reúne tradição gastronômica e excelência mecânica no mesmo território. Um lugar onde cozinhar, produzir e aperfeiçoar fazem parte da mesma cultura.
Toda prática cultural precisa de um lugar para acontecer, e no caso da cozinha esse lugar é literal: um cômodo organizado em torno do fogão, do forno e do tempo que a comida pede.
O costume que a UNESCO passou a proteger não sobrevive fora desse espaço. Ele se constrói ali, repetido ano após ano, muitas vezes com o mesmo equipamento atravessando décadas dentro da mesma família.
A mesma Emilia-Romagna que carrega o Parmigiano-Reggiano e o aceto balsamico tradizionale tem outro apelido, menos gastronômico: Motor Valley. A região onde nasceram Ferrari, Lamborghini e Maserati também formou uma cultura de precisão mecânica, detalhe técnico e permanência.
É nesse território que a cozinha italiana encontra uma de suas expressões mais consistentes: o encontro entre gesto doméstico e engenharia.
Em Guastalla, um engenheiro de balanças de precisão chamado Francesco Bertazzoni decidiu, em 1882, fazer cozinhas a lenha melhores do que qualquer coisa disponível no mercado.
A fábrica nunca saiu do lugar. Passou de pai para filho até chegar à sexta geração da família, mantendo o mesmo vínculo com a região e com uma ideia muito italiana de fabricação: unir domínio técnico, uso cotidiano e beleza funcional.
Mais de 140 anos depois, Bertazzoni continua produzindo equipamentos que carregam essa origem. Não como nostalgia, mas como continuidade. O fogão, o forno e a bancada seguem sendo parte da rotina onde a cultura da cozinha acontece todos os dias.

A balança de precisão remete à origem técnica da Bertazzoni e ao saber metalúrgico que deu início à marca.

Na Bertazzoni, trabalho manual e precisão técnica mantêm viva uma herança que atravessa gerações.
Um fogão fabricado há décadas na mesma cidade, pela mesma família, não aparece no dossiê que levou o reconhecimento a Nova Delhi. Mas é ele que organiza o tempo da cozinha todos os dias: a hora do almoço, a temperatura do forno, o gesto que uma mão repete depois da outra até virar memória de família.
Essa continuidade sustenta a cozinha por décadas, não pelo prato isolado que sai dela num domingo, mas pela rotina apoiada em ferramentas que não mudam de lugar nem de padrão, dia após dia, geração após geração.
Quem cresce ao lado do mesmo fogão aprende a reconhecer o barulho certo da chama, o tempo exato que o forno leva para esquentar, o jeito como a bancada guarda calor depois que o prato já saiu.
É esse compromisso com o tempo e o lugar que orienta Bertazzoni há mais de 140 anos. O equipamento que sai de Guastalla não é apenas uma peça de cozinha. É parte de uma cultura que entende cozinhar como prática, convivência, técnica e permanência.
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